Em livro recém-lançado, Giovana Atarasi Jurca, especialista em carreira, patrimônio e reputação de executivos, mostra como a síndrome do burnout passou dos consultórios para o escritório jurídico
O burnout deixou de ser um termo distante. A síndrome, associada ao esgotamento provocado pelo trabalho, hoje aparece nos corredores das empresas, nos afastamentos registrados pelo RH, bem como nas salas de audiência do Judiciário. Em 2025, o INSS concedeu 546 mil benefícios por transtornos mentais, um recorde. Os afastamentos por burnout passaram de 1.760, em 2023, para quase 7 mil em 2025. O que antes era tratado como questão de saúde individual passou a envolver responsabilidade, gestão de riscos e conformidade com normas.
Esse é o ponto de partida do livro “Burnout e o esgotamento humano no trabalho” (Editora Dialética, 2026), da advogada Giovana Atarasi Jurca, sócia-fundadora do escritório Atarasi Jurca Advocacia. A obra recorre aos autores da área da saúde como Maslach para explicar o que é a síndrome e a definição proposta pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e chega ao direito para explicar o tratamento jurídico dado pela legislação brasileira aos casos de adoecimento mental.
“O burnout deixou de ser um termo distante. Hoje ele está nos corredores das empresas, nos consultórios, nos escritórios de advocacia e nas salas de audiência”, afirma Giovana.
O que é o burnout
O burnout se manifesta em três dimensões: a exaustão, a despersonalização, que é o distanciamento em relação ao trabalho e às pessoas, e a sensação de ineficácia. A Organização Mundial da Saúde passou a classificá-lo, na CID-11, como um fenômeno ligado ao contexto ocupacional, resultado de estresse crônico no trabalho que não foi gerenciado com sucesso.
A distinção é importante. Ao vincular a síndrome ao ambiente profissional, a classificação desloca o foco da pessoa que adoece para as condições em que o trabalho é realizado.
Um problema da estrutura, não do indivíduo
No livro, Giovana Atarasi Jurca parte da crítica à chamada “sociedade do cansaço”, marcada pela cobrança permanente por desempenho, e reúne pesquisas que associam o burnout a falhas estruturais nos ambientes corporativos, como sobrecarga, metas desproporcionais e falta de autonomia.
“Tratar o burnout como fraqueza individual é um erro. As pesquisas mostram que ele está ligado a falhas estruturais na forma como o trabalho é organizado”, diz a especialista.
Quando o esgotamento chega à Justiça
A obra analisa como o Judiciário brasileiro tem respondido aos casos de adoecimento mental relacionados ao trabalho e detalha os mecanismos de reparação ao trabalhador, como a indenização por danos morais e materiais. O livro também aborda o dano existencial, conceito ainda em construção, que trata do prejuízo ao projeto de vida e às relações pessoais de quem tem a rotina tomada pelo trabalho adoecedor.
“Quando a empresa ignora sinais de esgotamento, ela não assume só um problema de saúde da equipe. Assume também um risco jurídico. Além disso, quando precisamos cuidar do caso de um executivo com burnout, por exemplo, é porque toda a estrutura falhou”, afirma Giovana.
Caminhos para prevenir
Na prática, a prevenção do esgotamento deixa de ser apenas uma boa prática de gestão de pessoas e passa a integrar as obrigações da empresa em saúde e segurança do trabalho. O livro detalha essas exigências e o que elas significam para a rotina das organizações.
A lição é que aula de ioga e aplicativo de meditação não substituem gestão. Não adianta oferecer pausa para meditar e manter metas impossíveis e um chefe que grita. Sem mexer nas causas, programas de bem-estar são paliativos.
Para os executivos, por exemplo, cuidar da própria saúde mental é também proteger a carreira, a reputação e o patrimônio construídos ao longo de décadas. Esperar o colapso para agir é a pior estratégia, para a pessoa e para a empresa.
Voltada a advogados, gestores de recursos humanos, médicos do trabalho e líderes empresariais, a obra não se limita a trazer definições. Giovana Atarasi Jurca propõe caminhos concretos para afastar o burnout das organizações, que passam pela revisão da forma como o trabalho é organizado, pela atenção aos primeiros sinais de esgotamento e pelo cumprimento das normas de saúde e segurança.
“Prevenir o burnout é, antes de tudo, uma forma de resgatar a dignidade no ambiente de trabalho, e isso é bom para as pessoas e para a empresa”, conclui a especialista.